Artigos / O Candidato

“A incompetência, até de graça, é cara”.
Um conhecido empresário Brasileiro

Caros desempregados descobri o motivo pelo qual tantos de vocês, apesar da experiência, competência e boa formação, estão tendo problemas para se recolocar. O problema não é novo, apenas tem se manifestado com mais intensidade nos últimos anos.

As empresas reclamam sobre isso. O comércio, de tempos em tempos, entra em surto e reclama também. O ramo de alimentação, às vezes, pega pesado e chega, segundo os maldosos, a soltar alguns boatos para assustar a população e minimizar o problema. Sei que o varejo em geral tem alergia a isso. Mas, confesso que foi a primeira vez que vi o conceito da concorrência desleal aplicado à seleção.

A origem do problema

Como todos sabem, procuramos na rua 25 de março, no centro de São Paulo, alternativas mais baratas. Mesmo sabendo que isso pode significar abrir mão de qualidade, durabilidade e até conforto. O preço, muitas vezes, é muito convidativo e tentador.

Sabemos que o produto pode não durar. Os componentes podem não ser de boa qualidade e a marca estampada na lateral pode ser apenas uma “liberdade artística” do fabricante, mas tudo bem – você pensa - pelo preço vale à pena correr o risco.

Você não conhece a procedência? Não é um grande problema. O atendente era simpático e o coreano dono da loja tinha uma cara boa, certo? Você pagou com cheque e o cara nem pediu documento. Você juraria que foi estabelecida uma relação de confiança mútua.

A garantia é só de três meses? Tudo bem, eu não vou ficar com o produto mesmo e se acontecer alguma coisa, vejo o que faço. Para o que preciso, está bom demais.

Às vezes a pechincha é tanta que há momentos que desconfiamos que o valor pago pelo produto oficial em uma loja convencional é, na verdade, um exagero baseado no custo do ponto ou fruto da ganância do comerciante. Que bandidos!

O nascimento de um 25

A notícia ruim é que algumas empresas estão fazendo algo parecido em seus processos de seleção.

O quê? Você está reclamando que não há bons candidatos pelo salário que estamos oferecendo? Com este desemprego todo? Duvido! Você falou dos benefícios? Reforçou que gerente até tem direito a quentinha? Com certeza é você que não sabe procurar. Com estas palavras de incentivo e motivação começa o carma do nosso recrutador.

O recrutador sai pelos corredores, desiludido da vida, pensando em formas de convencer um bom candidato a aceitar a proposta, apesar do salário ser muito baixo quando comparado ao mercado e às exigências do perfil definido e que a empresa, para ajudar, não é nenhuma maravilha. É melhor nem comentar sobre o futuro chefe - ele pensa - uma notícia ruim por vez.

Mas, a vida é boa, a felicidade existe e antes do recrutador virar mais um desempregado, ele encontra o famoso candidato “25 de março” (25 para os íntimos) que, depois de algumas entrevistas burocráticas, para felicidade geral da Nação, aceita a proposta. O recrutador agradece ao criador e faz vista grossa dos “probleminhas” de perfil que identificou. Pelo salário que estão oferecendo - ele pensa - este candidato está bom demais.

O 25 é parente distante do 171. São unidos por laços de sangue, mas temos que admitir que nosso querido 25 não tem vocação para o crime. Ele é, na verdade, uma vítima das circunstâncias.

Normalmente, o 25 vem numa embalagem em bom estado. Há situações um pouco mais complexas onde a embalagem e o conteúdo não batem, mas por que sermos tão puristas? Você pode encontrar bons 25 sem embalagem, mas neste caso, você precisa ter experiência para identificá-los. Isto não é trabalho para amadores.

O 25, principalmente com pilha nova, funciona bem. Numa primeira olhada, nada está fora do lugar e, aparentemente, faz tudo aquilo que se espera dele. Alguns, inclusive, apresentam bom nível de iniciativa. Há até versões bilíngües. Tudo isso por um preço muito camarada.

Já se foi o tempo em que o logo saia torto, as cores saiam erradas e a marca era a cópia de uma marca original com uma pequena alteração na grafia. Os bons 25 tem aparência de produto de primeira linha, só que bem mais baratos.

Os 25 lembram aquelas caixas de eletrônicos que antigamente vinham do Paraguai, sem o equipamento e cheias de tijolos, para simular o peso certo. Este é o grande problema: a falta de conteúdo. As lacunas de formação e a falta de conceitos básicos, decorrentes da pouca experiência, são perigosamente perceptíveis apenas depois de algum tempo de convivência, digamos uns seis meses, portanto superiores ao período de garantia, perdão, de experiência.

O 25 em ação

É normal ver o 25 apavorado depois de receber uma tarefa um pouco mais complexa, fora da sua zona de conforto. Ele gastará muito tempo ao telefone e no e-mail tentando conseguir uma “receita de bolo” que o tire do problema. O 25 pedirá, melhor, suplicará por modelos prontos, formulários já desenhados, orientação, conselhos, rezas e ebós como se o problema tivesse uma solução mágica. Em alguns casos extremos pedirá, ou suplicará, para que alguém de fora faça o trabalho por ele. Você lembra daquele colega de escola que vivia pedindo para por o nome no trabalho? Pois é, era um protozoário de 25.

Não passa pela cabeça do 25 que a solução pode ser algo mais complexo, fruto de experiência profissional, estudo, sensibilidade, determinação e muito suor. Ele quer uma receita e pronto, afinal de contas, ele está acostumado com as apostilas ou cópia de cadernos e nunca teve que aprender usando um livro. Na verdade, cá entre nós, colou bastante.

As consequencias

Quando a inoperância é percebida (chamaremos assim para sermos gentis), o estrago já é grande. Os problemas já se avolumaram e a crise está declarada. Neste ponto o chefe fica num dilema: demitir o 25 e assumir o erro da contratação, jogar a culpa em alguém ou deixar a coisa como está. Para o bem da Organização, a primeira alternativa é a única recomendável.

Muitas vezes, para azar da organização, o chefe conserta os estragos visíveis, joga os outros para baixo do tapete e deixa, no fundo, as coisas como estão, pois, afinal de contas, o 25 é barato e isto, nestes dias de aperto na economia, não pode ser desconsiderado. Neste caso, recomenda-se a demissão de chefe e do subordinado.

Dependendo das circunstâncias, do “suporte” externo e principalmente da sorte, os 25 podem sobreviver e ter vida longa nas Organizações. Alguns até são promovidos e posteriormente demitidos pelos mesmos motivos pelos quais nunca deveriam ter sido contratados ou promovidos.

Embora seja uma tendência pouco recomendável, é muito comum a contração de profissionais com perfis parecidos aos dos contratantes. Sendo assim, quando um 25 está estrategicamente posicionado abrirá a porteira para outros 25. Desta forma, ele se sentirá confortável e pouco ameaçado.

A proliferação dos 25 dentro de uma Organização transforma a empresa numa “roteadora” gigante, onde os problemas são jogados, primeiro, de um lado para outro e depois para baixo do tapete, por total despreparo das pessoas que tem que lidar com eles.

Manual prático de combate aos 25

Como evitar a contratação de um 25? Simples, comece pela prevenção:

a)Perfil: Defina um perfil de vaga coerente com o perfil da empresa e com o mercado. Evite exigir pós-graduação, quando a empresa não dá bola para isso. Não peça idiomas, quando isto, apesar de estar na moda, não tem relevância na função. Evite exigir experiência e, simultaneamente, limitar a idade dos candidatos. Evite pedir visão estratégica, se a posição fará trabalho operacional. Lembre: um bom perfil não é um perfil bonito é um perfil honesto;

b)Remuneração: Defina um nível de remuneração coerente com o perfil desenhado. Se você exige boa formação, experiência, idiomas e características pessoais/comportamentais específicas esteja pronto para pagar por isto. Não há nada mais constrangedor do que ter que explicar para o candidato que apesar de exigir “cinco anos de experiência em cargo gerencial, pelos menos dez de experiência na área, fluência em Mandarim, perfil empreendedor, boa visão de negócios, experiência internacional e atuação estratégica” você pretende oferecer o salário de um Analista Junior recém-promovido, certo? E tente não ficar vermelho.

c)Seleção: Durante o processo de seleção, não se deixe impressionar pelos candidatos bem articulados. Vá fundo na entrevista, entre nos detalhes, peça exemplos reais e sempre verifique referências, organize entrevistas técnicas e peça outras opiniões. Além disto, tome cuidado com a excessiva preocupação pela aparência. Ela é importante, mas com certeza há outros pontos mais relevantes. O folclore futebolístico diz que o Ronaldinho Gaúcho, no auge, não foi para o Real Madrid porque o Presidente do clube o achou feio, certo?

d)Depois da contratação: acompanhe o desempenho do novo funcionário. Seu cliente ficará feliz de ver que você não considera seu trabalho encerrado até realmente ver o novo funcionário bem integrado e trabalhando satisfeito e produtivamente.

Se apesar disto, algum 25 furar o bloqueio, não tenha dúvida, se o encontrar no corredor, mire e atire. A empresa, seus colegas competentes e esforçados e a economia do país vão agradecer.

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