Artigos / As Pesquisas de Clima Organizacional

Seja a mudança que você deseja ver no mundo
Mahatma Gandhi

Quando o caos tomou conta da organização, o turnover chegou a níveis que deixam vermelho até o Diretor Financeiro, o ambiente do escritório lembra uma permanente quarta-feira de cinzas e as greves de estivadores são mais comportadas que as reuniões internas, eis que surge a solução mágica: fazer uma pesquisa de clima!

Moisés chegando com os 10 mandamentos não faria tanto alarde do projeto, mesmo antes dele sair do papel. Aliás, muitas vezes, nem no papel é colocado, pois o projeto normalmente é fruto de um faísca de criatividade que, não por acaso, muitas vezes é comparada com o processo de criação da letra de “Lucy in the sky with Diamonds”, se é que você me entende.

Mas, vamos lá. A decisão foi tomada e o projeto é anunciado como se apenas sua existência fosse o necessário para resolver tudo de ruim que está acontecendo.

Ao longo do tempo e com base no constante movimento de vai e volta da diretoria (camuflado por um interessante movimento de rodopio intermitente que provoca enjoo nos mais sensíveis), o ceticismo inicial dos empregados transforma-se, temporariamente, num descaso parcial que termina desembocando numa apatia geral. Ou seja, o clima, que já não estava aquelas coisas, fica um pouco mais, como direi, agitado.

Falei de greve de estivadores? Esquece, aquilo é um chá de senhoras quando comparado ao dia-a-dia no escritório. Mas, calma. Como dizem os pessimistas, não há coisa ruim o suficiente que não possa piorar um pouco mais.

Depois de ter sido esgotado todo o estoque de dramin, o responsável pela idéia decide encontrar uma vítima que assumirá, voluntariamente pressionado, a responsabilidade pela parte operacional do projeto, ou seja, por e tirar a idéia do papel.

O questionário

Caberá a esta vítima procurar quem prepare o questionário de perguntas, a um preço simbólico. Afinal, uma empresa em crise que se preze não fica gastando em futilidades como, por exemplo, uma empresa com experiência em pesquisas deste tipo. Prefere poupar para comprar todo o estoque de dramin do mercado, renovar a frota ou comprar alguma novidade tecnológica para alguns escolhidos.

Os entendidos na arte de fazer bons questionários, aqueles que não permitam chegar a conclusão alguma, sabem, que a criação de um questionário deste tipo é uma arte milenar, que está calçada em poderosos conceitos de dedução e poderosos sofismas. Nunca uma pergunta será feita diretamente, nunca uma resposta merecerá um simples “sim” ou “não”. Nunca um conjunto de perguntas deverá cercar um assunto específico, para assim cruzar respostas, pois isto poderá - credo - permitir um bom grau de certeza sobre o resultado.

Questionário que se preze deve ser hermético e, se possível, enfadonho. Um questionário de mestre deveria ainda estar em uma língua estrangeira e, se possível, inundado com falsos cognatos. Como você percebe a tarefa não é fácil.

Análise do resultado

Se, apesar dos esforços, os funcionários da empresa responderam o questionário e ainda por cima o fizeram com sinceridade (este pessoal não tem amor ao emprego!), você terá a obrigação moral de analisar os resultados. Não adianta, mesmo que você diga que nos dias de hoje compromisso moral e pudim de leite tem o mesmo peso nas decisões corporativas – admitindo uma leve vantagem para o pudim – a análise deverá ser feita e ponto.

Esteja preparado, pois pela situação descrita no primeiro parágrafo, o resultado da pesquisa poderá não encher de orgulho o fundador da empresa (que Deus o tenha), nem o sucessor (enfartado), nem o filho dele, que aliás não liga a mínima e só aparece por lá nos dias de pagamento. Sendo assim, não cabe outra solução que não seja a de nomear um grupo de trabalho que receberá um nome similar a “Comitê de ações de melhoria” e entregar humildemente o resultado a Deus ou, neste caso, ao diabo.

O Comitê, obviamente, será correta e enfaticamente orientado a esquecer soluções minimamente criativas, que aliás não devem ocorrer, pois para isso foi montado a dedo, salvo um ou outro infiltrado. Ao mesmo tempo, o Comitê será também orientado a evitar qualquer ação que gere custo, sendo que neste caso a palavra “custo”, assume uma conotação muito além daquela contábil/financeira, tem mais um quê de estado de espírito, de condicionamento pavloviano e quem sabe, de um vício a ser tratado.

Apesar do esforço, a lista de ações propostas pelo Comitê poderá contar com algumas boas ideias. Neste caso, elas devem ser sumária e rapidamente eliminadas, isto para não contaminar o resto da lista e para não dar a falsa impressão de que algo de importante esperava-se como resultado do trabalho.

The End

Finalmente, as poucas ações que se salvaram do crivo final serão implantadas e terão pouquíssimo impacto na Organização. Na sequencia, o idealizador da pesquisa será elogiado e eventualmente promovido. O condutor do processo será demitido (queima de arquivo disfarçado de dispensa por falta de motivação), o clima do escritório piorará um pouco mais e os funcionários continuarão mandando CVs. Mas, nem tudo está perdido, a diretoria adorou a renovação da frota. Pena que só alguns gostaram das novidades tecnológicas.

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