Artigos / As Demissões

"O mundo não está ameaçado pelas pessoas más,
mas sim por aquelas que permitem a maldade".
Albert Einstein 

Muito já se falou sobre o aprimoramento do processo de recrutamento e seleção e muito pouco se fez do outro lado, no triste processo de demissão.

Segundo as pesquisas, a demissão, a separação e a morte do um parente próximo estão entre as maiores fontes de stress que uma pessoa pode ser obrigada a suportar.

No caso específico da demissão, são vários componentes que fazem este processo tão doloroso: a impotência perante a decisão, a sensação de injustiça (justificada ou não, tanto faz), a incerteza em relação ao futuro, a vergonha e o forte impacto na autoestima.

O processo de recuperação é lento e doloroso. A única cura é a recolocação, se possível, em condições melhores que as anteriores. Quando isto não acontece, o estrago na autoestima é muito grande. O profissional começa a questionar sua capacidade, sua competência e sua empregabilidade. A coisa piora, se enfrenta processos de seleção mal conduzidos como aqueles comentados em um artigo específico.

A recuperação é especialmente complicada quando o processo de demissão é mal conduzido. Quando cuidados básicos não são tomados. Quando além do processo de demissão há uma grande carga de humilhação. Em muitos casos, gestores despreparados tentam fazer esforços honestos que terminam tendo consequencias ridículas, como aquele Presidente que demitia, segundo ele por performance, mas fazia questão de amenizar a situação com uma cerimônia onde, na frente dos diretores, entregava ao demitido uma placa de agradecimento pelos “relevantes serviços prestados à empresa”.

Todo profissional de RH deveria ser demitido de tempos em tempos. Esta seria uma boa forma de refrescar a memória e reviver, em carne própria, todas as sensações do evento. O objetivo seria dar a chance dele usar a própria experiência na condução de processos de demissão de uma maneira mais decente e humana.

Até que ponto podemos chegar?

O processo de demissão faz aflorar o pior que as Organizações e seus gestores tem dentro de si. Há um grande arsenal de técnicas à disposição dos interessados. Estas são algumas das práticas reais que tive a oportunidade de conhecer:

- Reunir a equipe toda, citar alguns nomes em voz alta e comunicar que as pessoas citadas estão demitidas. Os especialistas diriam que é doloroso, mas é rápido. Evita aquele vai e vem da sala do chefe e a insuportável espera até ser chamado. Há controvérsias;

- Reunir a equipe numa sala, comunicar que todos estão demitidos e logo em seguida chamar o representante da empresa de Outplacement contratada para cuidar do que sobrou e limpar o sangue das paredes. O mensageiro some da sala e nunca mais é visto pelos demitidos;

- Mandar o incauto para a fábrica com uma lista de demitidos na mão. Pedir para ele se postar na entrada e comunicar a cada funcionário que está chegando que está demitido. Fazer isto na quarta-feira de cinzas, às 6h00. O incauto já recebia adicional de periculosidade, não houve custos adicionais;

- Chamar o futuro demitido na sala, pedir ajuda na redação de uma carta de demissão. No final, pedir para a vítima colocar o nome dela na carta, imprimir e assinar. Este procedimento merece nosso prêmio especial, Marques de Sade;

- Definir pela demissão de um subordinado direto. Chamar o Gerente de RH para comunicar a decisão, definir a data da demissão e pedir agilidade no processo e na papelada. No dia indicado, faltar ao trabalho e deixar que o RH faça o trabalho sujo;

- Comunicar a demissão explicando que ele é um ótimo profissional, que não se trata de problemas de desempenho e sim, uma lamentável redução de custos. Logo a seguir, comunicar ao demitido que seu acesso à rede já está bloqueado, que ele será escoltado por um funcionário da segurança até deixar o escritório e que a partir daquele momento está vetada sua entrada na empresa. Conheço um sujeito que levou um soco do demitido ao informar das restrições e comentar que “não o queria ver por aqui no dia seguinte”;

- Pedir para a vítima fazer uma viagem de emergência para fora do país. Fazê-la trabalhar por quatro dias, no último dia, antes do retorno ao país comunicar por telefone que ela está demitida. Deixar claro que não há problemas de desempenho, que é um ajuste necessário em função da situação financeira da empresa. Pedir colaboração no processo de transição e nunca mais voltar a falar com a vítima.

Estas práticas vem sendo constantemente aprimoradas e nos últimos anos, as demissões por telefone ou por e-mail vem demonstrando grande aceitação por parte dos autores, que as consideram - como direi - mais limpa e menos estressante. Obviamente, há controvérsias entre os demitidos.

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